Tecnologia: uma história de inclusão

É natural que, ao pensarmos em inclusão, imaginemos pessoas que apresentam alguma redução de funcionalidade de natureza sensorial, motora ou intelectual. Entretanto, quando observamos o ser humano de forma mais ampla, percebemos que ninguém possui todas as habilidades necessárias para viver com autonomia em todas as circunstâncias. Em diferentes graus e momentos da vida, todos dependemos de algo que amplie nossas capacidades.
Foi justamente para superar limitações, facilitar tarefas ou tornar possível aquilo que antes não era que as mais variadas tecnologias foram desenvolvidas ao longo da nossa história, tornando-se poderosas ferramentas de inclusão.
Quando se fala de tecnologia, é possível que se pense imediatamente nos computadores e em seus parentes mais próximos, como tablets e celulares, ou ainda nos carros modernos e nos fornos inteligentes. Sim, todos eles são excelentes tecnologias, mas uma faca de aço também representa uma valiosa conquista tecnológica. Ela permitiu que pessoas com diferentes habilidades motoras cortassem e preparassem alimentos com mais facilidade, sem precisar manusear instrumentos rústicos que exigiam maior força e destreza. E o palito de fósforo? Imagine a transformação representada pela possibilidade de carregar o precioso fogo dentro de uma pequena caixa e produzi-lo com um gesto simples, em comparação com os antigos métodos baseados na fricção de pedaços de madeira ou na produção de faíscas por meio de pedras e minerais.
Também podemos citar a roda e os inúmeros meios de transporte que dela derivaram. A descoberta das ondas de rádio abriu caminho para a transmissão de sons e imagens a longas distâncias e para o compartilhamento de notícias e conhecimentos em uma velocidade que nenhum meio anterior havia alcançado. Antes disso, a invenção da imprensa revolucionou a circulação do conhecimento, ampliando progressivamente o acesso à leitura, até então restrito a pequenas parcelas da população.
As tecnologias podem democratizar possibilidades e expandir o potencial daqueles que conseguem utilizá-las. Sob essa perspectiva, elas se tornam instrumentos de inclusão.
Para as pessoas que nascem com alguma deficiência ou que a adquirem ao longo da vida, os recursos, conhecimentos e práticas destinados a promover funcionalidade e participação social são reunidos no campo da Tecnologia Assistiva. Trata-se de uma área interdisciplinar que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços voltados à promoção da autonomia, da independência, da qualidade de vida e da inclusão social.
Podem-se citar como exemplos de Tecnologia Assistiva uma calçada acessível, com piso tátil e sinalização adequada; um talher adaptado para quem apresenta dificuldade de coordenação motora; um leitor de tela para pessoas cegas ou com baixa visão; uma bengala; uma cadeira de rodas; uma prótese; um teclado adaptado para pessoas com comprometimento dos membros superiores; ou ainda um recurso de comunicação alternativa destinado a quem não utiliza a fala como principal meio de expressão. Esses são apenas alguns exemplos.
Em alguns momentos, para levar adiante um projeto de inclusão, é necessário articular diversos componentes de Tecnologia Assistiva, como é o caso do Instituto ParaSurf, que possibilita a prática do surfe por meio da combinação de espaços acessíveis, avaliação cuidadosa das condições climáticas e do mar, equipamentos adaptados e pessoas preparadas para aplicar esses recursos e proporcionar uma experiência segura aos participantes.
Você pode estar pensando: mas e o impacto da tecnologia no mundo? Essa é uma preocupação legítima, pois, sempre que uma tecnologia é adotada, mudanças acontecem. Algumas habilidades deixam de ser tão exigidas, enquanto outras passam a ser desenvolvidas. Sempre foi assim e, possivelmente, sempre será.
Vamos refletir um pouco sobre a nossa história. Já não precisamos ter a destreza de encontrar a melhor caverna, pois aprendemos a construir nossas próprias moradias. Não precisamos ser exímios caçadores nem coletores para obter alimentos, pois desenvolvemos a agricultura, a criação de animais e sistemas complexos de produção e distribuição. Também não precisamos memorizar tudo o que o professor diz em sala de aula, porque dispomos de cadernos, livros, gravações e inúmeros outros meios de registrar e recuperar informações.
Ao adotarmos essas tecnologias, algumas competências tradicionais podem ter perdido importância ou deixado de ser praticadas com a mesma frequência. Isso não significa, porém, que o ser humano tenha simplesmente perdido capacidades, regredido ou se tornado menos inteligente ou menos capaz. No fundo, o que o mundo e tudo o que nele há revelam é justamente o oposto. Significa que passamos a distribuir nossas capacidades de outra forma, reorganizando esforços e abrindo espaço para o desenvolvimento de novas habilidades.
Quando acompanhamos a trajetória humana desde os tempos mais remotos até os dias atuais, é possível perceber que os ganhos proporcionados pela tecnologia superaram amplamente as perdas. Nossa capacidade de produção expandiu-se em todas as direções: da agricultura, requisito elementar para a manutenção da vida, às naves que exploram o cosmos; dos equipamentos de saúde e segurança aos recursos de comunicação, educação, cultura e entretenimento.
O esforço envolvido na realização de novos projetos também expande gradualmente a mente humana e produz novos olhares sobre o próprio ser humano, sobre seus direitos e sobre a liberdade de ser, de viver e de conviver. Há, certamente, hoje, mais mecanismos de proteção, defesa e valorização da vida humana – e até mesmo dos ecossistemas dos quais fazemos parte – do que em qualquer período anterior de nossa história.
A tecnologia manifesta-se, assim, como uma ferramenta catalisadora das potencialidades humanas. Ela reduz a carga dos processos mais mecânicos, transpõe barreiras e permite que nossas capacidades sejam direcionadas a domínios mais complexos de criação, conhecimento, cooperação e participação social.
É compreensível que toda inovação provoque receios. As transformações tecnológicas interferem na organização do trabalho, nas relações sociais e na maneira como produzimos, aprendemos e nos comunicamos. Seus riscos precisam ser identificados, discutidos e enfrentados com responsabilidade. Entretanto, quando o debate se limita a previsões negativas, corremos o risco de enxergar apenas aquilo que uma tecnologia pode retirar de nós, deixando de perceber tudo o que ela pode acrescentar à experiência humana.
O medo também participa da maneira como as sociedades recebem suas inovações. Riscos reais exigem atenção, regulamentação e escolhas éticas. Contudo, a repetição de narrativas exclusivamente negativas pode produzir paralisia, resistência e dependência intelectual, afastando as pessoas até mesmo das ferramentas capazes de ampliar direitos, reduzir desigualdades e promover maior autonomia.
Talvez, diante de cada nova tecnologia, a pergunta mais importante não seja apenas o que poderemos perder com ela, mas o que poderemos aprender, criar e compartilhar graças a ela – e, principalmente, o que devemos fazer para que essas novas possibilidades alcancem também aqueles que, por tanto tempo, permaneceram à margem.
A história humana é a história de nossa capacidade de criar instrumentos para superar limites. A tecnologia é uma expressão da inteligência humana, mas também uma permanente ferramenta de inclusão. Como sintetizou Mary Pat Radabaugh: Para as pessoas sem deficiência, a tecnologia torna as coisas mais fáceis; para as pessoas com deficiência, a tecnologia torna as coisas possíveis.
Eliana Caus Sampaio é mestre em Ciências da Educação, com MBAs em Data Science e em Inteligência Artificial, e mais de 35 anos de experiência em computação, entre desenvolvimento de sistemas e docência no Ensino Superior. Coordenou por 16 anos projetos sociais de Inclusão Digital e colabora há 10 anos na gestão da Apae de Vitória. Atualmente é pesquisadora independente no contexto de PcDs e colunista do Instituto ParaSurf.



Comentários